quarta-feira, 6 de junho de 2012

Perdão.


Tudo apagou.

A escuridão chegou.
O mundo cegou.
e o amor, esfriou.


Caminhando perdido em sombras, o rapaz se pergunta
"Haveria chance para dizer o que ele queria? Haveria chance para fazer o que ele faria?"
Ele não sabia. No fundo, pra ele pareceu tudo perdido... E por mais constelações que um mundo possa ter, no mundo desse homem, quando uma estrela se apagava, a escuridão caia em seu mundo.

E ainda perdido em sombras, o rapaz se pergunta
"Por que a estrela apagou? Teria eu cuidado mais de uma estrela do que de outra? Teria eu descuidado mais de uma do que de outra?"

- Não... - ele quis se convencer. Não havia feito nada de errado, ele sabia - Não fiz nada de errado...

Mas a tristeza o consumia. Ver aquela estrela apagada, justamente aquela estrela que ele gostava TANTO o deixava triste, desamparado. O que ele, um mero cuidador de estrelas, poderia fazer?
E de repente, um clarão surgiu. Iluminou tudo por perto e tornou a escurecer. Era o suficiente, sua cabeça tinha  sido iluminada e a ideia, nasceu.

Voou até uma galáxia, ali perto de onde estava. Era púrpura e tão brilhante quanto qualquer ametista que a Terra já poderia ter visto. Pegou um balde bem cheio daquilo e jogou no escuro. Esparramou com a mão e lembrou de como se divertia vendo aquela estrela se divertir.

Com uma estrela vermelha, ainda nova, salpicou pintinhas vermelhas aqui e ali naquela profusão de cores cósmicas. Ele viu as cores voltando, aos poucos... E sabia que a estrela estava se acendendo novamente.

Não era o suficiente, ainda. Pegou um cometa e com a sua flamejante cauda, que mais parecia uma calda, azul pintou aquela obra.

"Ufa!" pensou o rapaz. Mas ainda faltava o toque final. A estrela viu o seu trabalho e virou-se para ver aquilo. E quando o fez, revelou um anjo, cheio de graça e luz, com a face um pouco triste. Ele viu aquilo e ficou sem entender do que se tratava... Era bonito, mas qual era o propósito?

- Somente para chamar sua atenção, Anjo meu - disse o rapaz, que tinha lágrima nos olhos - Queria que me visse...
- E estou te vendo - disse o Anjo, que mais parecia uma anja, tamanha a delicadeza e feminilidade de suas expressões - O que desejas?
- O que eu desejo, Anjo meu, é maior do que qualquer ser vivo, morto ou cósmico. O que eu quero é uma das formas mais puras e intactas de amor. O que eu quero é a luz que perfura a escuridão...

Então, desabando em lágrimas, mas com um sorriso de derreter os corações mais gelados e com uma linda rosa, feita de um cristal vermelho, em mãos ele disse:

- O que eu quero de ti... é o Perdão.

domingo, 11 de abril de 2010

Gênese do Sangue - Índice




"A conexão desse sangue é eterna..."
- "Filth in the Beauty", The GazettE.



Gênese do Sangue

Genése du Sang


O começo do eterno laço de sangue.

sábado, 10 de abril de 2010

O Gênese do Sangue - Parte V (Final)

O gritou ecoou pela noite, fazendo algumas corujas que por ali estavam voar para longe. Foi um grito horroroso, saído do fundo de Pierre. Jacques ouvia um barulho semelhante ao de lâminas, no mínimo cem delas, cortando profundamente a carne. Os gritos do Capitão ficavam mais profundos a cada segundo. Apesar da obstrução, Jacques teve a certeza de ver as pequenas lâminas cortando Pierre, que caiu de joelhos no chão. Novamente, ouviu a voz dele dizer: “Me desculpa Jeanne! Eu não quis! Eu não quis! Eu nã.. AAAAAHHHH!” E as lâminas cortaram-no mais uma vez. Então viu as pequenas lâminas reunindo-se e tomando a forma de uma gigantesca clava. Ouviu Jeanne dizer “Últimas palavras?” e Pierre responder “Me... Perdoe.”
Jacques não teve estômago para ver o que ocorreu a seguir. Apenas ouviu o som de gritos, ossos e carne sendo esmagados violentamente. Então, virou-se e o cristal que bloqueava a entrada, sumiu. Juntou coragem dentro de si e adentrou a cabana. A primeira coisa que viu foi uma massa disforme, coberta por um manto viscoso e vermelho, que julgou ser Pierre, agora morto. Viu também, por ali perto, o corpo seco daquele que ficou levitando, agora num ângulo incomum, talvez em função dos seus ossos quebrados. Evitou olhar para o rosto dele, com medo de ver uma expressão de profundo terror e acabar traumatizando-se mais. Foi quando avistou Jeanne, caída. Correu até ela e a levantou delicadamente pela cabeça com apenas uma mão. Olhou para o rosto dela e viu que as marcas retrocediam, lentamente para dentro das fendas oculares, assim como a lágrima de sangue, que retornava também. Os olhos, lentamente voltavam a cor azul original. Jeanne soltou um suspiro cansado e abriu os olhos com muita dificuldade e viu um embaçado Jacques segurando-a

- Amor... Eu te pedi para...
- Xiiiu – Jacques disse, colocando seu dedo indicador sobre os macios lábios rosados de Jeanne – Não diga nada, meu anjo. Não podia ir embora sem dizer meu adeus...
- Jacques...
- Você é única mulher que eu tive certeza que amei. Você é a mãe da minha filha. Seria, no mínimo, falta de coração da minha parte deixar você aqui...

Jeanne fitou os olhos de Jacques, que transpareciam o amor mais puro que já vira antes. O rapaz, então, abraçou forte a sua esposa. Seu braço a envolveu de forma calorosa e terna e então, colocou a mão na nuca de sua mulher. Sentiu os lisos cabelos negros escorrerem por entre os dedos e a beijou. Foi um beijo profundo, apaixonado, forte e caloroso. No fundo, queria que sua energia vital passasse pelos lábios encontrados e aquecesse o agora corpo frio de Jeanne. Mas no fundo, Jacques sabia que isso não aconteceria. Chorando, pressionou a cabeça dela contra seu peitoral, enquanto a acariciava. Sentiu uma dor profunda em seu coração, como se mil agulhas o perfurassem incessantemente. Haviam lhe tirado o amor. Haviam lhe tirado a felicidade. Sua vida foi junto com Jeanne.
Jacques se levantou. Secou as lágrimas e pegou a vela, que misteriosamente ainda estava acessa. Tirou um pedaço de madeira do chão e pôs fogo nele e após isso, flamou o interior. Saiu da cabana, ainda com a madeira acesa em mãos e fez o mesmo do lado de fora. Em questão de pouco tempo, as chamas transformaram o casebre numa fogueira gigante e Jacques viu, de fato, o amor da sua vida ir embora. Deu um profundo suspiro, sugando todo o ar morno da manhã para seus pulmões, tentando aceitar o fato de que ela não voltaria nunca mais e se foi, caminhando.
Enquanto andava pela única estrada perto dali, olhou para Marie, que apesar de tudo, ainda dormia feito um anjo. Jacques sorriu para sua filha, lhe deu um beijo na testa e disse:


- Marie... Marie Jeanne. Esse será seu nome. Uma homenagem à mulher mais forte, mais linda e mais amorosa que um ser poderia conhecer.

Virou-se para a cabana, coberta pelas chamas. Fitou aquela dança hipnótica que elas faziam e sentiu que seu coração apertar. Ao mesmo tempo, o vento silvava uma única nota, de forma gostosa, nos ouvidos de Jacques, que virou-se instintivamente para o lado de onde vinha aquela brisa. Agora, pôde notar onde estava. Era uma planície. A grama verde começava a cintilar com os primeiros raios de sol que eram refletidos pelas pequenas gotas depositadas lá. Algumas poucas árvores pingavam uma noite inteira de chuva, para alegria de alguns pássaros que por voavam perto das copas.
Enquanto ficava observando a paradoxal cena, Jacques sentiu um movimento nos seus braços. Olhou na direção do movimento e viu que sua filha estava acordando. A pequena Marie, aquela pequenina guerreira que só chorou quando nasceu, esboçou um sorriso, mas desistiu na metade do caminho. "Sua espertinha", Jacques sorriu ao pensar isso.
Aquela situação trouxe Jeanne à memória, que por sua vez, fez o homem lembrar-se de uma frase dita por ela nesse dia tão incomum.


“A ligação de nosso sangue é eterna.”

E disse, para si mesmo: “Sempre juntos”.

Jacques rumou pela estrada que havia ali perto, em direção do Sol, na busca pela paz. Isso não parecia tão distante agora. Agora, só havia sobrado ele e sua filha. Ninguém mais poderia o atrapalhar.

Estavam enfim, livres de problemas...



Ou não.








*****FIM DO GÊNESE*****

O Gênese do Sangue - Parte IV

- Ora... Agora ele quer piedade – Ela voltou com a cabeça ao normal – DEPOIS DE MALDITOS QUINZE ANOS NOS PERSEGUINDO, VOCÊ QUER QUE EU TENHA PENA DELE, SEU CÃO IMUNDO?! – A voz, mais grave, gutural e volumosa fez até o último pelo de Pierre se arrepiar – Primeiro... vou acabar com esse maldito... E você será o próximo, Pierre..

Jacques sabia o que viria agora. Ele se virou para não ver a cena que seguir, fechando seus olhos com força. Depois, tampou os delicados ouvidos da pequena Marie com suas mãos, numa tentativa de isolá-la desse cruel fato. Pierre olhou para os lados, assustado e reparou que o outro guarda já havia fugido também. Estava sozinho, agora. Então voltou sua visão ao soldado, que estava ficando pálido, mas ainda se debatia, embora de forma mais fraca. A mão feita de sangue apertou mais a garganta do pobre homem. A tosse seca e sem ar do homem fazia Jacques se sentir cada vez pior. Pierre começou a notar que o lugar começou a ficar mais quente. O suor já começava a escorrer pela testa quando ele viu algo estranho... Se é que fosse possível ficar mais. Havia vapor saindo da boca do homem suspenso no ar. À primeira instância, o vapor ainda era branco, como o de água. Mas, após alguns segundos, a fumaça começou a trocar de tonalidade, passando por um rosa claro, que ficava mais e mais concentrado, até tornar-se rubro... Como o sangue. Também era visível que o vapor ficou mais denso, encorpado, parecendo um macabro fantasma vermelho dançando e circulando suavemente. A cada instante que passava, o vapor começava a sair de outros orifícios do guarda: fendas dos olhos, narinas, ouvidos e poros da pele. A cada segundo de extração do vapor, o homem urrava de dor. Era um berro tenebroso, aterrorizado, como se percebesse que sua vida estava saindo por cada fenda de seu corpo. A cada momento que seus berros ecoavam dolorosamente nos ouvidos daqueles que ouviam, podia-se perceber que as forças do rapaz, que já eram poucas, estavam esvaindo junto com aquela fumaça vermelha. Em poucos minutos, tudo que restou foi o calor, a nuvem rubra, o silêncio e um corpo seco, flutuando.
Pierre observou cada minuto de sofrimento do soldado, atônito. O Inferno era pouco perto do que ele acabou de ver. A nuvem fazia um movimento circular sem sair do lugar, como se estivesse viva. Jacques, virou-se, e viu o que restara do pobre soldado, que agora jazia inanimado no ar.

- E-e-ela... Ela tirou a alma dele? – Pierre perguntou, gaguejando.
- Não... – Jacques falou baixo – É o sangue dele.

Pierre engoliu em seco. Quis gritar como nunca gritou na sua vida inteira, mas ficou sem fôlego pra isso. O corpo, seco, que flutuava à frente deles, moveu-se para o alto. Subiu mais um metro e foi arremessado com força total ao chão. O impacto foi violento, fazendo o assoalho da cabana quebrar, assim como os ossos do homem morto, fazendo um uníssono ‘craque’. Jeanne, que ficou calada durante toda a cena se virou para Jacques, e com sua voz normal disse:

- Amor... Preciso que corra daqui... Leve nossa Marie pra longe disso tudo. Ela não pode viver essa vida que eu vivi, ela não tem que descobrir essa maldição do nosso sangue. Esteja sempre com ela e por ela... É meu último pedido...

Jacques chorou. Olhou para sua mulher e teve a certeza que era ela, de fato. Era seu último desejo... Por mais que não quisesse realizá-lo, Jacques precisava fazer isso. Secou suas lágrimas com suas surradas e encardidas luvas e acenou positivamente com a cabeça. Quando preparou-se para ir, ela disse, novamente.

- Eu... Eu irei acabar com ele e assim que isso acontece, irei desfalecer. Minhas forças estão no final – Ela engasgou como se estivesse chorando - Quero que você queime essa cabana. Assim, os Ventos do Sul levarão para longe todo o passado... Será silêncio. Sentirás a minha falta, amado. Tenho noção disso... Mas, não se esqueça que a ligação de nosso sangue é eterna. Não importa para onde minha alma seguirá, estaremos juntos...
- Sempre juntos – Jacques concluiu, chorando muito – Tem que ser assim? Achei que havia encontrado a felicidade...
- Você a encontrou, meu amor. Assim como a trouxe para mim também, na forma de uma linda menininha. Você ainda a tem, em seus braços. Fuja daqui e viva para contar a minha história para nossa filha... – Ela fechou os olhos, como se invocasse seu demônio interior outra vez

Jacques quis poder abraçar e beijar, pela última vez, sua esposa. Sem poder fazer isso, apenas beijou sua própria mão e soprou o beijo para Jeanne, que fechou os olhos prazerosamente, como se uma brisa gostosa do verão atingisse seu rosto... E sorriu.
Ele correu então, segurando muito firme sua filha, para fora da cabana e ficou do lado de fora. Pierre que observara aquilo quieto, tentou sair também. Mas, ele viu parte da nuvem vermelha se desprender numa pequena porção e viajar até a sua frente numa velocidade impressionante. Como num passe de mágica, a fumaça transformou se num bloco enorme de um cristal vermelho semitransparente no ar, que caiu na frente de Pierre, bloqueando a saída. Ele deu um salto pra trás, esquivando-se de um possível esmagamento e virou-se com um olhar furioso para Jeanne, como se quisesse matá-la, mas sentiu toda sua coragem e raiva evaporarem quando viu Jeanne, agora de pé. Seus cabelos estavam esvoaçando e a porção de nuvem rubra que restou, flutuava a seu lado.
Jacques não conseguiu ver o que aconteceu pelo cristal. A imagem estava turva e distorcida, em função do cristal que estava no portal da cabana. Mas, foi possível ouvir um último diálogo entre Jeanne e Pierre.

- Por favor, Jeanne... Não me...
- CALE A BOCA – a voz era gutural, outra vez – Você merece sofrer por longos quinze anos. Você tem que sentir a dor que eu senti de correr, de não ter um lar. De não ter paz.
- Eu só segui ordens...
- JACQUES ERA SEU AMIGO, PIERRE! Você teve a escolha de não nos perseguir. Mas, em nome de uma idiota ganância, preferiu nos trair. Contou meu segredo para a Coroa... Fez com que a Igreja e a Realeza nos caçassem como raposas. Transformou nossa vida num inferno real! Agora, Pierre, você irá sofrer em quinze segundos TUDO que eu sofri em quinze anos.
- Não, Jeanne... Não! Não! Nããããooooooo!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O Gênese do Sangue - Parte III

- COMO ASSIM?! – Pierre berrou, sem entender Por mais que já tivesse visto isso antes, Jacques ainda não tinha se acostumado com esse tipo de situação e essa, em particular, era nova para ele. Então, Jacques olhou novamente aquele homem que levitava sem explicação alguma, acima dele. Isso parecia machucá-lo bastante. Toda vez que Jeanne mexia seus dedos, o guarda soltava gritos de dor, assustando Pierre e os outros soldados que presenciavam a cena mais macabra que já teriam visto antes. - O que está acontecendo aqui, Jacques?! – Pierre urrou, numa tentativa de pingar consciência e lógica no que via Jacques não respondeu. Virou sua cabeça e notou que Pierre realmente estava desesperado. Ver um homem naquela situação não era algo comum, mesmo para um homem como ele. Jacques notou também que o Capitão estava tremendo, do seu dedo mínimo do pé até o último fio do seu cabelo e embora essa não fosse a hora para pensar nisso, quinze anos de implicância estavam, enfim vingados. Jacques havia se distraído com a visão do medo que Pierre estava sentindo que acabou se assustando com os berros que o guarda que levitava soltou. Estavam maiores, mais volumosos... Doloridos. Ele dizia baixinho, mas ainda assim de forma audível: “Por favor... Por favor... eu tenho uma filha para criar...”. Mas aquela Jeanne carinhosa e amorosa havia dado lugar a uma dama fatal. Ele estava de cabeça baixa, até então. Enquanto via o guarda se debatendo como um peixe fora d’água, ela levantou a cabeça vagarosamente, revelando uma versão demoníaca daquele anjo que sentava na cama. No rosto, marcas rubras como rosas vermelhas que se assemelham a tatuagens em tribal saiam das fendas oculares e se estendiam até as suas têmporas faziam uma espécie de maquiagem do mal. Os olhos, antes claros como o céu de um dia sem nuvens, agora estava num tom carmesim profundo e cintilante, como se chamas aquecessem as íris. Suas pupilas tomaram a forma de uma fenda, ficando semelhante aos olhos de um lagarto. Mas, o que realmente chamou a atenção de todos na cabana era que Jeanne estava chorando. Não eram lágrimas transparentes, como as de costume... Era sangue. Essa simples visão de uma Jeanne mudada fez um dos soldados correr de medo, saindo da cabana aos gritos. Pierre recuara mais alguns passos, tremendo muito e encostou-se à parede. Sua mente ainda recusava o que acontecia, era simplesmente surreal ver um de seus homens flutuando, suspenso por nada e gritando de dor toda vez que aquela mulher com uma aura realmente malvada mexia sua mão. - Co-co-como isso é possível?! – Ele falou baixinho, temendo que a “demônia” o ouvisse – Isso é impossível! Isso não é algo de Deus... Talvez realmente não fosse. Mas as dúvidas que corroíam sua consciência logo seriam respondidas. Jeanne começou a fazer gestos com a mão estendida, como se girasse algo e simultaneamente, o guarda virava devagar. Isso parecia doer mais que as mexidas de dedo que o faziam reclamar toda hora. Ao ficar completamente de frente para Pierre, o capitão pode notar que havia algo na garganta do rapaz. Tinha a forma da mão humana e estavam em volta do pescoço, como se o levantasse pela aquela parte do corpo, sufocando-o também. O Capitão notou também que a figura de mão que enforcava o seu subordinado era vermelha e brilhava, refletindo a luz da única vela ali. Então, como um relâmpago que atinge uma árvore, a conclusão atingiu sua razão. - Sangue... Pierre estava encostado na parede, nesse momento. Quando percebeu do que se tratava, deslizou por ela até sentar, incrédulo no que via. Já havia enfrentado todo tipo de meliante: Dos bandidos mais comuns aos assassinos mais frios... Mas isso era demais para ele. Que tipo de ser era Jeanne? Sua mente afundava em dúvidas enquanto ele via o homem choramingando “Por favor, me solte...”. A voz ficava mais e mais fraca. Era óbvio que a mão feita de sangue estava asfixiando-o. “Será possível que ela é tão má assim? Vai deixar o homem indefeso morrer sofrendo?” pensou o Capitão, que para seu espanto, ouviu uma voz grave vindo de onde Jeanne estava: - Sim, capitão... Sou uma garota vil e cruel que verá seu soldadinho de chumbo sofrendo. – disse Jeanne, com uma voz tão tenebrosa quanto aquela estranha noite. Jacques arrepiou e Pierre soltou um ruído estranho, agudo, como se fosse um gritinho de medo. Jeanne parou de olhar para o soldado e fitou o Capitão. Olhou a cena e deu um sorriso malvado, como se estivesse aproveitando aquilo tudo com um prazer imensurável. O Capitão sentiu sua espinha gelar quando a mulher lançou-lhe um olhar fulminante. Então ela abriu a boca e disse: - Mas... Asfixiar não é maneira de fazer esse homem sofrer... – ela tombou a cabeça para o ombro, olhando o homem de forma curiosa – Tenho outros meios para trazer a dor...

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O Gênese do Sangue - Parte II

O relâmpago foi tão forte que conseguiu iluminar de forma perfeita o rosto que estava no portal da cabana. O pouco tempo que Jacques tinha foi suficiente para ele descobrir quem era aquele rosto familiar. Jeanne viu um rosto marcado pelo tempo: Rugas, marcas do tempo, cicatrizes. Mas ainda era um rosto imponente. Os cabelos castanho-escuros molhados pela chuva estavam jogados no rosto e mesmo assim os olhos completamente negros podiam ser vistos focando-se na pequena Marie, ignorando o fato de seu marido estar com uma espada apontada pra ele. O homem andou alguns passos e outro relâmpago cortou os céus, dessa vez revelando a sua vestimenta: Botas e luvas de couro, agora sujas de lama, um tabardo tão negro quanto o céu da noite, portando o poderoso e imponente escudo da família real francesa. Por baixo do tabardo, era possível ver uma cota de malha que ia do tronco, até as pernas, também embarreada. Na sua cintura, uma espada embainhada, tão imponente quanto a de Jacques.

O homem caminhou para dentro da cabana a passos fortes, fazendo cada pelo de Jacques se arrepiar. Enquanto andava, os ruídos de metal se chocando ritmadamente ficavam mais intensos. Talvez porque seus passos tornavam-se ainda mais fortes. Primeiro, ele andou perto das paredes e com a luva, ainda molhada, passou o dedo indicador pela cabana, até chegar perto da cama. Olhou para a luva e com uma cara de desgosto a limpou. Então se virou para Jacques e lançou-lhe um olhar fulminante.

- É nisso que está vivendo agora, Jacques? - o homem perguntou, disparando olhares de nojo para a cabana – Trocaste o conforto da realeza por isso? Por essa... Cabana com fedor de estrume?
- Saia daqui, Pierre! – Jacques ameaçou firme, do outro lado – Mais um passo e eu juro que abro uma segunda boca na sua garganta!
- Ora, ora... O nobre arrependido criou garras – ele disse num tom irônico, enquanto se aproximava de Jeanne
- NÃO SE APROXIME PIERRE! EU JURO PELA SANTA CRUZ QUE FAREI VOCÊ SE ARREPENDER AMARGAMENTE DISSO! – Jacques deu passo à frente, mas logo hesitou em dar outro quando viu os outros três homens, que trajavam a mesma roupa que Pierre entrarem no quarto também.
- Não... Sua mulher não é o que queremos, Jacques – Pierre se virou para Jacques e foi caminhando até ele, calmamente – Queremos a pequenina...
- Não encoste nem um dedo nela, Pierre! – Jeanne disse, bufando de raiva, mesmo sem forças pra isso – Você não vai querer ver do que uma mãe ameaçada é capaz!
- Já estou acostumado com isso. Mais do que você imagina, bruxa meretriz. – Pierre cuspiu no chão ao dizer isso, e logo se virou para a Jacques e a menina – Agora, deixe me ver essa criança...

À medida que Jacques recuava e levantava a trêmula espada em sua mão numa tentativa inútil de afastar Pierre, dois dos três homens ficaram na porta vigiando, enquanto um deles se aproximava de Jeanne como uma hiena faminta. E assim, o desespero depositou sua capa em Jacques. Ele fechou os olhos por uns instante e os abriu e tudo ficou em câmera lenta. O pobre homem olhou para sua mulher, numa busca sem sucesso de resposta, que mentalmente tentava lhe dizer “Corra, meu amor!”. Depois, olhou para o bebê em seu colo, pensando em como isso poderia afetá-la mais tarde, ela era pequena demais para se afundar nesse tipo de problema. Mas, ao mesmo tempo, não queria deixar sua mulher ali, à mercê dos homens. Ele sabia que os soldados usufruiriam dela. Isso seria uma desonra completa pra si: Abandonar sua mulher e deixar que outros homens abusem dela. Olhou-a novamente, e viu que ela ainda estava com o olhar de súplica para que corresse dali o mais depressa possível. A confusão na mente de Jacques ficava pior e pior, até que olhou novamente para Marie. Ela não chorava mais. Estava dormindo, mesmo com toda a barulhada e comoção. A carinha de anjo dela fez Jacques entender tudo. Alguém precisava continuar, eles precisavam continuar, não havia como fugir disso.
Ele então se encheu de confiança, faria isso por sua filha. Uma de suas maiores virtudes era a rapidez nos pensamentos. Chegava a conclusões e ligava pedaços de lógica numa velocidade impressionante e fez uso disso para traçar seu plano de fuga. Olhou para Pierre que ainda se aproximava e depois para os guardas do lado de fora. O plano era simples. Trombar com os dois, e ganhar na força. Depois, correr como nunca correu na vida, até achar um abrigo. Assim que estivesse seguro, iria pensar em outro plano para despistar os perseguidores. Não era um belo plano, mas era tudo que poderia ter essa hora. Jacques segurou Marie firme e olhou determinado para o lado de fora. Ele estava decidido, iria por seu plano em prática... Se não fosse por um detalhe.

Um sentimento estranho o assolou. Sentiu seu coração bater forte, muito forte. Não como antes, mas de uma forma ainda mais temerosa e preocupante. Cada bombeamento era forte, podia ser sentida pelo corpo todo. As veias pulsavam num ritmo diferente. Era como se as batidas descompassadas de seu coração tentassem lhe dizer algo. Seu corpo estava relutante em se mexer. Cada músculo de seu corpo, cada fibra de seus músculos faziam força contrária ao pedido suplicante do cérebro de Jacques para correr adiante. Talvez, por puro instinto, Jacques olhou para todos os outros homens no quarto. Pierre estava parado, atônito, de boca aberta. Os guardas haviam entrado no quarto, e em puro desespero gritavam sem entender o que estava acontecendo.

O terceiro guarda, aquele que estava perto de Jeanne agora estava suspenso no ar, mas nada o sustentava. Era como se ganchos invisíveis o suspendessem cada vez mais alto. Ele gritava de pavor e olhava aterrorizado para todos. “Capitão! Capitão! Ajude-me!”, berrou o pobre rapaz, que ficou a dez palmos de altura do chão. Então, Jacques virou-se para a sua mulher e aí pôde entender o que estava sentindo. Jeanne estava mudada. Seus cabelos estavam jogados para frente, tampando seu rosto. Sua camisola, outrora suja de sangue, estava limpa agora. A mão estava estendida, aberta e apontada para o guarda que estava levitando. Sempre que ela mexia os dedos, o homem suspenso urrava de dor, como se algo o machucasse.

- Agora é tarde... – Jacques disse, com a voz baixa – Ela está descontrolada...

terça-feira, 6 de abril de 2010

O Gênese do Sangue - Parte I

23 de Agosto de 1645, em algum lugar da França...

- Marie... seu nome será Marie... - dizia a mulher, de cabelos negros, arfando após um difícil parto
- Jeanne... - Respondeu um homem magro, trajando o que pareciam ser roupas de caça usada por um nobre, feitas de couro verde - Não fale nada... Poupe suas energias, por favor.
- Jacques... - Jeanne respondeu, com os olhos afundados em lágrimas - Apenas vá com ela... antes que eles cheguem, por favor...
- Não! Isso está fora de cogitação! - O homem berrou e o bebê, ainda sujo de sangue, começou a chorar - Não vou te abandonar aqui, Jeanne!
- Apenas vá, Jacques... - A mãe dizia fraca, fazendo esforço pra se sentar na cama - Eu os segurarei por aqui... Você sabe que eu so...
- NÃO! - o bebê chorou mais alto.

O homem então ficou calado. Olhou para a face de sua amada e deu uma bela olhada em volta. Quem diria... Antes, adornado de jóias, ouro e glória, e agora tudo que via era escuridão, sofrimento, fome, correria. Estavam numa cabana, antiga, feita de madeira. Dentro dela, apenas uma cama de palha, bem rústica, onde Jeanne estava sentada. Do lado da cama havia um criado mudo, no qual apenas uma vela acesa, a única fonte de iluminação no local, podia ser vista. O cheiro de velhice dessa cabana irritava o nariz de Jacques. Por mais que estivesse correndo, seus sentidos ainda estavam apurados para o sentido nobre da vida. E aquele cheiro o incomodava.
Para a sua sorte, o cheiro de terra molhada pela forte chuva que caía lá fora começava a travar uma batalha aromática com o mofo da cabana, trazendo uma mistura peculiar e gostosa, até certo ponto. Perto da porta da cabana, uma capa de couro marrom estava pendurada e por cima da capa, uma espada, embainhada.

Em meio aos clarões de relâmpagos e aos fortes estouros dos trovões, Jacques ainda não acreditava no que estava acontecendo. Esse era para ser o dia mais feliz da sua vida: Sua filha nasceu saudável, uma linda menina. Jacques olhava pra ela e todo esse maldito turbilhão que contorceu sua vida parecia se endireitar. "Tal criatura não merece mesmo esse destino", Jacques pensou consigo, enquanto olhava com os olhar mais terno do mundo à sua filha. Caminhou até ela e com um pano que estava na cama, secou cuidadosamente o sangue dela. Olhando-a de perto, o rapaz notou que ela tinha o nariz parecido com a da sua mãe. Sorriu sem perceber e olhou para Jeanne: Ela ainda estava suja de sangue. As suas pálpebras pesavam com o cansaço, tamanho o esforço empregado para parir sua cria, mas ainda assim. Ela conseguiu abrir os olhos e viu Jacques lhe entregando Marie, agora envolta numa toalha branca.

- Ela é linda... - disse Jeanne, com a voz fraca e com lágrimas nos olhos. Então, deu-lhe um beijo na testa e disse - Perdoe-me, meu anjo. Perdoe-me pela terrível maldição que nosso sangue carrega... Perdoe-me por tudo que farei você passar, mon petit bijou...

As lágrimas pingavam no rosto da pequenina. Por mais que Jacques fosse forte, ele não aguentou e chorou silenciosamente e triste. Ele curvou-se até a Jeanne, abraçou-a forte. Sentiu as gélidas lágrimas dela em seu rosto e então a beijou de forma carinhosa e amorosa. Ele sabia que essa seria a última vez que viria sua mulher. Olhou-a nos olhos, afastou os seus longos e negros cabelos, pegando carinhosamente pelo rosto. Tentou dizer algo, discordando da idéia de correr dali e deixar sua mulher morrer, Jeanne fitou-o, censuruando-o o suficiente para que o fizesse desistir da idéia de falar. Andou até o gancho, colcou sua capa nos ombros e se emcapuzou. Pegou sua espada, prendeu a na cintura e voltou até a cama. Então, com o olhar mais triste que já teve, pegou cuidadosamente sua filha, enrolando-a de forma mais cuidadosa e a colocou dentro de sua capa. Mirou novamente para Jeanne, que fez um sinal com as mãos para que ele fosse embora, antes que fosse tarde. Jacques acenou com a cabeça e foi.

Assim que o primeiro passo foi dado, os dois ouviram um estrondo vindo de fora, como os de uma bota acertando a madeira. Jacques olhou para sua mulher preocupado, e ela retornou esse olhar. A segunda batida veio. Jacques recuou alguns passos e sacou sua espada, de lâmina incrívelmente límpida e reluzente, enquanto Jeanne, sorrateiramente, pegou uma adaga prateada, escondida debaixo do travesseiro.

A terceira batida foi ouvida. A porta caiu de forma violenta no chão, revelando uma silhueta do que parecia ser um homem. Jacques conseguiu divisar, mesmo no escuro, que haviam outros três homens, juntos com aquele que estava na frente da porta caída. Suas mãos estavam suando, suas pernas tremendo. Seu coração estava tão rápido que por um instante achou que fosse explodir. Era o medo. Ele recuou mais alguns passos até que um relâmpago trouxe a luz assim, revelando a imagem.